Somos seres biológicos, nosso corpo físico, nossa saúde orgânica necessita de cuidado e atenção, bem como como a saúde mental, a observância das nossas emoções e sentimentos e a natureza do humano, o bem e o mal que habita em nós.

Somos seres sociais, gregários, necessitamos do contato humano, da troca, de relacionamentos saudáveis, de afeto, abraços, pertencer a um grupo, seja de que ordem for, o primeiro e talvez o mais importante de todos, o grupo familiar.

Segundo algumas pesquisas científicas, a dimensão espiritual é de extrema relevância para a saúde do ser humano.

E, não nos referimos a fé religiosa, mas a espiritualidade que é parte integrante da personalidade, a espiritualidade não tem necessariamente relação com a religião.

Espiritualidade é a relação com o seu mundo, com o outro, comigo e com Deus

 

Tomemos por base o cultivo de uma presença, um intangível em nós, uma maneira que busco viver, no contato com a Natureza, aproveitando o melhor para o equilíbrio emocional e orgânico, é ir além da sensação na pele, é um  sentimento de bem estar, humor e alegria.

Espiritualidade, dizem alguns, é o relacionamento com o mundo, com o outro, comigo e com Deus.

Alguns dizem ser o cultivo da presença do espírito, outros que é a manifestação do espírito em nós… eu particularmente gosto da definição de um estilo de viver com amorosidade e generosidade animada por um algo maior e fonte inesgotável que também está em mim – é só deixar fluir e penso que esta condição está para os budistas, islâmicos, pagãos, hindus.

Espiritualidade ≠ Religiosidade

 

Não devemos misturar para não confundir a espiritualidade e a religiosidade, definindo:

A palavra religião existe desde o século 13.

É de origem latina e vem de relegere (reler, revisitar, retomar).

Pode ser interpretada como reler e interpretar documentos religiosos.

O português Francisco Rodrigues dos Santos Saraiva, especialista em latim, considera o verbo relegere a verdadeira origem da palavra religião.

Entretanto, há quem defenda que a palavra tenha origem no verbo religare (religar, atar, apertar).

Nesta concepção, a religião liga a humanidade ao divino, que pode ser Alá, Deus, Grande Mãe, Deusa, e tantos outros, ou seja, o ligar-se novamente à essência Divina que é um Todo e do qual fazemos parte.

A Religiosidade é como dizem alguns “uma janela para a espiritualidade”.

A versão é considerada demasiadamente romântica por alguns  outros Autores clássico.

A adesão a crenças, pensemos aqui em religião, são fortes em grupos cujas vidas são menos controláveis, mais imponderáveis, mais ameaçadoras, com perigos iminentes e imprevisíveis, também diante de finitudes como um modo de redimensionar receios e dores oriundos da fragilidade, da decadência, da vulnerabilidade e os sofrimentos pelas perdas num percurso maior de vida , além de se tentar ultrapassar e vencer a angústia diante da incógnita da extinção pela morte cada vez mais próxima.

O que é espiritualidade?

 

Espiritualidade vem do latim “spiritus”. 

São crenças, atitudes e práticas que levam ao transcendente.

Enquanto a religiosidade é encarada como um fervor em cumprir ritos e acreditar em dogmas, a espiritualidade é uma busca pelo bem-estar interior, serenidade e plenitude.

A espiritualidade está ligada ao conhecimento da alma humana, a fé em suas habilidades, sendo a maior delas amar a nós mesmos, semearmos o amor entre nossos pares, semear a paz. Niura Pandula, neuropediatra e pesquisadora da Universidade Paulista de São Paulo (UNESP) define a espiritualidade como a prática da ética, moral e solidariedade.

Espiritualidade como a prática ética

 

Acredito que a espiritualidade é a consciência de que somos um fenômeno transcendente à vida concreta e material, ou seja, o homem não consegue explicar como veio ao mundo, como existe – de onde viemos e para onde vamos.

Ter-se consciência de que há uma força maior que rege o universo, e do qual somos uma partícula mínima em meio às outras partículas com várias qualidades parecidas e muito diferentes das nossas, mas que juntos fazemos “funcionar” esse grande conglomerado de energias que é o Universo.

Viver em função desta consciência de que somos parte destas forças, as quais, muitas ainda nem conhecemos, mas que são percebidas o tempo todo em nosso cotidiano.

Isso para mim é espiritualidade.

Assim, não importa qual a religião escolhemos para seguir, para praticar.

Esta escolha somente mostra a nossa empatia com ideias, conceitos e percepções específicas, diferente de concepções  vivenciadas por outras pessoas e em outras religiões, mas que também levam à espiritualidade.

Espiritualizar-se é adquirir a compreensão e vivência de virtudes como: amor, respeito à vida, livre-arbítrio, verdade, beleza, bondade, liberdade, devem ser praticadas e mais que isso, vividas.

É a busca do significado para nosso papel nos meios sociais nos quais vivemos: escola, trabalho, sociedade, família, buscando equilíbrio nestas várias dimensões, não se fixando em crenças e modelos fanáticos e materialistas diversos.

 

Espiritualidade na pratica clínica psicanalítica

 

Verifica-se como poderoso fator de suporte para enfrentar desafios, frustrações e sofrimentos, além de melhorar consideravelmente a saúde e a qualidade de vida.

Espiritualidade, além de ser uma noção complexa, passa pela objeção de ser considerada um conceito metafísico, sem as credenciais do rigor científico para legitimar o termo.

Embora as atuais evidências sejam tão expressivas e numerosas que já não há possibilidades de ignorar o termo.

De qualquer forma, não se trata de um tema sobre o qual profissionais se sentem confortáveis em tratar, até porque se costuma associá-lo a confissão religiosa, crendice.

E, freqüentemente, ele é percebido como uma abordagem falsa, enganosa, sectária, calcada na necessidade de se apontar mesmo um descaminho na vã tentativa de buscar eternidade.

Ou seja: ainda se confunde uma discussão a respeito do tema com ingenuidade ou charlatanismo.

Hoje já nos permitimos falar a respeito dessa questão até pouco tempo tabu, o que consideramos um avanço – A Medicina resolveu apoiar essa crença, admitiu que os estados emocional e espiritual influenciam diretamente no tipo de vida que levamos, e apesar das opiniões acerca desse assunto serem controversas, aspectos importantes como perdoar, liberar sentimentos e pensamentos negativos e despertar a consciência são práticas que estão diretamente relacionadas ao entendimento espiritual.

A doença da alma

 

Com o apoio desses conceitos, uma nova disciplina optativa foi introduzida no currículo da faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro: Medicina e Espiritualidade.

“Na Europa e nos Estados Unidos, cerca de 80% das faculdades já têm essa cadeira no currículo. No Brasil, ainda estamos devagar”, diz José Genilson Ribeiro, coordenador da disciplina na UFF. Também explica como funciona o ensino:

“Acreditamos que a doença começa na alma, instala-se no corpo físico, e que é preciso tratar o paciente de maneira integral.

Não basta tratar o efeito da doença, mas os aspectos totais.

Muitas pessoas têm mágoas e não conseguem perdoar.

Isso as deixam presas em suas dores, o que dificulta a melhora física”, assegura.

Os professores que lecionam Medicina e Espiritualidade são guiados pela ideia de “medicina integrativa”, seguindo a proposta da Carta de Ottawa, de 1986, que tem o objetivo de contribuir com as políticas de saúde em todos os países, de maneira igualitária.

De acordo com o documento, a verdadeira saúde é uma consequência do bem-estar físico, psicológico, familiar, social e espiritual.

A visão do Psicanalista no setting terapêutico sobre a Espiritualidade está bem longe dos rituais, mas reconhece sim que estes são importantes para nosso psiquismo e nos religa aos aspectos simbólicos que nos alimenta enquanto seres psíquicos, e vamos além, espiritualidade é uma postura de vida, não levada ao fanatismo de proibições e regras materialistas, mas uma postura vivenciada na consciência do amor, da esperança, da confiança no Todo, na liberdade responsável, na igualdade pela fraternidade etc..

A busca da espiritualidade

 

Segundo Frei Patricio Sciadini, “A busca da espiritualidade não pode prejudicar a ninguém, mas deve nos ajudar a ser cada vez mais livres da matéria e senhores do nossos instintos”.

O caminho da espiritualidade não deve ser egoísta, nem tampouco excessivamente “altruísta”, deve sim, seguir um equilíbrio natural.

Os instintos são os elementos que mais nos causam problemas na vida, caso não os controlemos.

Ser escravo dos instintos é levar uma vida voltada aos desejos desenfreados, se o deixarmos, se manifestará de forma patológica com efeitos psíquicos como por exemplo: obesidade pela compulsão, e outras compulsões diversas: às drogas, ao sexo, trabalho, a práticas que fazem mal a outros e a si mesmo.

Assim, não ser escravo dos próprios instintos é importante, para que se tenha “liberdade”.

Liberdade de escolha, liberdade de expressão da sua essência, fonte inesgotável e torrente de energia”.

Quando usada a seu favor auxilia a combater o estresse, raiva, amargura e depressão.

De acordo com Ricardo Monezzi, pesquisador e psicobiólogo do Instituto de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), esta energia atua no sistema límbico, área responsável pelas emoções.

A espiritualidade também fortalece o sistema imunológico.

É possível viver a espiritualidade ainda que sem  religiosidade, mas é imprescindível que busquemos nosso autoconhecimento, poderemos compreender nossos limites para exercer e viver a espiritualidade de forma independente.

Os métodos -religiões- estão à disposição para vivermos através deles a verdadeira espiritualidade de forma profunda, basta nos entregarmos.

O exercício da liberdade requer responsabilidade e compromisso consigo e com o outro.

Não visa buscar a felicidade a todo custo.

Concluindo

 

O espírito é o único ser que é por si incapaz de ser objetivado – ele é pura atualidade, só tem seu ser na livre realização de seus atos.

O centro do espírito, a pessoa, não é, portanto, nem um ser objetivo nem um ser coisificado, mas apenas uma estrutura ordenadora de atos que leva a tempo constantemente a si mesmo.

A pessoa só é em seus atos e através deles…

Algo anímico não realiza a si mesmo: ele é
uma série de acontecimentos no tempo…

Tudo o que é anímico é passível de objetivação – mas não o ato espiritual.

Nós só podemos nos reunir ao ser da nossa pessoa, nos concentrar em sua direção – mas não podemos objetivá-lo. Como pessoas não podemos objetivar nem mesmo as outras pessoas.
(Max Scheler, 1928/2003, p. 45)

 

Bibliografia

Scheler, M. (2003).
A Posição do Homem no Cosmos.
Rio de Janeiro: Forense Universitária (Original publicado em 1928)

Elias, N. (2001).
A Solidão dos moribundos.
Rio de Janeiro: Zahar