Nos primeiros anos de vida, pouco antes da infância, precisamente no primeiro setênio, ocorre a construção do conceito que temos de nós mesmos, inicia-se desde que nascemos, já com um sistema biológico frenético, com a estruturação e maturação do sistema neurosensorial e sistema nervoso central e dos órgãos do sentido. Uma criança bem cuidada nesses primeiros sete anos de vida forma uma pessoa confiante e equilibrada, o que implica diretamente no modo como interage com o mundo e com as outras pessoas, tornando tal atenção essencial para o funcionamento da sociedade, entendemos por bem cuidar ser criada em um ambiente amoroso, livre de grandes traumas, não excessivamente frustrante e não excessivamente gratificante.

 

Desenvolvimento

Além do desenvolvimento físico, que é muito importante nessa fase da infância, devemos dar atenção ao contato, a criança requer cuidados como aconchego, amor, calor, alimento, limite e, acima de tudo, confiança. Anos singulares, marcados pelos cuidados recebidos da mãe ou outro cuidador para que o serzinho caminhe rumo a autonomia e independência relativa e constrói pouco a pouco a autoeficácia. Freud trouxe importante contribuição para a leitura e interpretação dos conflitos da infância, a partir do entendimento deste período.

 

Primeiro ano de vida

O primeiro ano de vida, amor, atenção e carinho, são as bases da construção da segurança e auto aceitação, para que ele possa no segundo ano iniciar uma comunicação, ainda imprecisa para tentar ser atendido, a partir do terceiro ano começa uma transição e menor dependência da mãe. Começa a socializar e introjetar regras simples e à medida que avança também se instaura a vergonha e a culpa e uma tentativa de controlar suas emoções. Entre 5 e 7 anos a criança começa a ter uma demanda social, ir para escola, dormir nos avós, para depois entender seu lugar na família, na escola e na sociedade.  Nesta fase a criança já manifesta ter aprendido habilidades sociais adequadas, aprendida através da instrução, da imitação, do preparo e da prática, devendo ser esse o foco da educação dos pais.

Essa fase do desenvolvimento cognitivo favorece o egocentrismo das crianças, uma fase marcada pela dificuldade de ver qualquer ponto de vista diferente do seu, nesta fase ela pensa ou age de acordo com os seus interesses e vontades sem se importar com a maneira como seu comportamento irá afetar a outras pessoas e por isso tende a se considerar responsável pelo que acontece em sua volta, mesmo quando não tem culpa, por isso, tanto o vivido e entendido como traumas e as fantasias construídas deixa grandes marcas em nossas vidas.

 

A psicanálise na maternidade

A psicanálise se refere à mãe suficientemente boa, uma mãe que atende as necessidades da criança antes mesmo que ela tenha a capacidade de as formular. É a mãe que um bebê recém-nascido precisa. Conforme cresce e se desenvolve, a mãe não precisa mais atender as necessidades de seu filho com tanta presteza, pois a criança adquire a capacidade de comunicar melhor suas necessidades e consegue também esperar até ser satisfeita. A mãe que consegue dar este espaço de autonomia para seu filho ao longo de seu crescimento, ampliando-o de acordo com o amadurecimento deste e oferece ao filho somente aquilo que ele não tem capacidade de conseguir por conta de sua imaturidade. Mãe suficientemente boa é uma mãe que consegue reconhecer as aquisições e progressos da criança, permitindo à criança experimentar seus próprios recursos a fim de resolver suas necessidades e principalmente é aquela que vai se tornando aos poucos desnecessária.

A construção da vida

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Se constitui então essencial nesse período um adulto cuidador que possa se desprender na medida do possível de suas próprias necessidades para estar atento às necessidades da criança e favorecer o estímulo necessário para que a criança caminhe e desenvolva uma “independência relativa”, uma vez que independência absoluta nunca será alcançada, dada a necessidade afetiva e gregária do ser.

Gostaria de chamar atenção também para importância do brincar. A brincadeira, é como as crianças se aproximam e se apropriam da realidade, muitas brincadeiras infantis permitem que a criança possa assumir um papel ativo, a partir de uma experiência na realidade em que viveu passivamente, bem como, construir seu repertório com respostas mais criativas. O brincar também favorece a interação com outras pessoas, com o mundo externo, propor um compartilhamento entre o que vem de si e o que vem do outro, na construção de algo novo e conjunto. A criança que não divide seu mundo interno, fechando-se, ou desligando-se de seu mundo interno, adapta-se pura e simplesmente à realidade contribui para um adulto empobrecido psiquicamente e com reduzidas habilidades sociais e criativas, conforme nos coloca Monica Seincman.

 

desenvolvimento da infância

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Durante este todo esse processo de desenvolvimento na primeira infância, é imprescindível a participação dos pais, que tendo se dedicado e realizado o melhor que podiam e sabiam, deve atentar para o reconhecimento da criança como um outro, como um sujeito diferente de si. Este e um momento delicado, pois não se refere apenas a como os pais o conduzem, mas também como as crianças entendem e introjetam, ou seja, esta percepção de um “sujeito” acontece tanto quando não estabelecem-se vínculo, como quando este vínculo é da ordem da simbiose, ou seja, quando a criança não tem valor por si, não tem direito a uma existência própria, sendo sempre submetida ao desejo de seus pais, não sendo, portanto, na infância nada mais que um objeto e se desta forma o for, veremos inevitavelmente grande sofrimento nesse desenvolvimento, nessa construção de limite e de autonomia no ser em formação, a relação entre as partes pode comprometer o desenvolvimento e o futuro adulto. Deve haver, portanto, grande esforço por parte dos pais em oferece o que é preciso para que seus filhos possam ser saudáveis psiquicamente e independentes deles. Para isso, é preciso que ambas as partes aceitem renunciar ao ideal, pois nesta relação de mão dupla há conveniências, satisfações e inicialmente e inadvertidamente menos riscos.

 

Família

No âmbito familiar na infâ, nem sempre podemos nos defrontar com nossas próprias dificuldades e sofrimentos, sentimos, disfarçamos e por vezes calamos, por isso é extremamente comum elegermos porta-vozes para tanto, ainda que inconscientemente. Assim sendo as crianças são importantes porta-vozes de seus pais e da família de modo geral. Um sintoma que aparece em uma criança conta, obviamente, da criança, mas em grande parte conta também da relação familiar em que esta criança está inserida. Costumamos dizer que na criança há o sintoma dos pais. Por vezes, a criança se apresenta apenas como porta-voz, como aquela que denuncia o que não vai bem com o grupo. Quando isso acontece, temos que envolver aqueles que não conseguem em nome próprio procurar ajuda, é muito comum inclusive que os pais procurem ajuda para os pequenos e constatem que na verdade eles devem ser terapeutizados.

 

Sociedade

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Ao pensarmos na sociedade contemporânea vemos com frequência os cuidados que caberiam as famílias, cada vez mais restritas em quantidade e  qualidade,  sendo transferidos para escolas, cabendo a estas a formação cognitiva, moral, sexual, religiosa, cívica etc… o que deixa os educadores em grande dificuldade, pois estes não tem o exclusivo dever de dar conta de toda a complexidade presente na educação da criança na infância. Há que considerar também o fenômeno televisão. Mário Sergio Cortella no livro Não Nascemos Prontos, coloca que a partir dos dois anos de idade a criança assiste em média três horas diárias de televisão, o que resulta em mais de 1000 hrs como expectadora durante um ano, (sem contar outras mídias como celular) ao chegar ao 7 anos, idade escolar, a criança já assistiu mais cinco mil horas de programação televisiva.

Quando pensamos na questão psíquica e sua formação e estruturação de personalidade, é apavorante pensar que muito da formação de valores, hábitos, normas, regras e saberes deu-se pela mídia com valores discricionários, erotização, individualismos, agressividade entre tantos outros.

Educar, as crianças é dar-lhes condições de sobrevivência para que forme-se jovens e adultos sensíveis a vida alheia e suas ações refletirão para um mundo melhor.(Josefa Anunciada)