Essa reflexão foi inspirada nos últimos acontecimentos e vale lembrar que isolamento social não é propriamente um conceito na obra de Freud e Lacan. No entanto, entendemos que há uma série de conceitos fundamentais que se articulam à solidão e que podem contribuir para pensarmos esse tema tão comum a nossa clínica. Sem querer ser muito técnica e não tão rasa, pretendo trazer conceitos e a construção de um raciocínio de fácil entendimento diante dessa condição imposta pelo covid-19.

Isolamento social

“Significa a privação de contatos sociais” O isolamento social é caracterizado não apenas pela ausência de contatos sociais. O conceito se estende a algumas situações onde contato até existe, mas o que não há é interação.

Conceitualmente há um isolamento social classificado em isolamento social passivo e isolamento voluntário. O isolamento voluntário é o espontaneamente vivido, sem sofrer qualquer pressão externa, onde o indivíduo anseia e busca tal distanciamento do seu meio social habitual, seja por um período de tempo restrito, seja por um período prolongado, que não é objetivo dessa live.

Isolamento social passivo é “aquele fenômeno de privação social contínua ou variável que ocorre à revelia do sujeito, ou seja, aquelas contingências de vida ou situações sociais que determinam um indivíduo a afastar-se involuntariamente do seu contexto social” Caracteriza-se geralmente, pelo caráter coercitivo e imposto da separação social.

Entendendo dessa necessidade

Durante o processo de evolução o ser humano construiu uma serie de mecanismos cognitivos e biológicos que nos predispõe ao buscar conexão social. Somos fundamentalmente uma espécie social e está na nossa natureza reconhecer, interagir e estabelecer relações com os nossos semelhantes. Interação, convívio, pertencimento, troca, é uma NECESSIDADE HUMANA BASICA,  uma vez atendida, favorece a saúde, a auto estima, nos torna pessoas mais generosas, felizes e nos faz inclusive ter um sentido para vida.

Somos seres gregários, treinados a viver pelo outro. Estar perto de alguém é necessário para que nos sintamos valorizados, mas o que esperamos das demais pessoas e como nos relacionamos com elas é ainda mais relevante.  Por isso essa condição e isolamento social favorece um sofrimento significativo, associando-se à redução da qualidade de vida e ao aumento da morbilidade. Isolamento físico em si, aumenta os níveis de cortisol  no corpo — hormônio ligado à resposta ao estresse.  A presença do cortisol eleva a pressão arterial, reduz o sistema imunológico e pode, entre outros fatores, contribuir para o declínio da performance do sistema cognitivo, pode até mesmo levar o indivíduo a sentir dor física real.  A falta de interação com amigos e familiares também colabora com o aparecimento da depressão, da demência precoce e de problemas cardíacos segundo pesquisas.

Ao longo do tempo tem sido estudadas diversas intervenções dirigidas ao isolamento social e o sentimento de solidão que ele traz. A solidão é a experiência subjetiva de angústia por não ter relações sociais suficientes ou por não ter contato suficiente com as pessoas, não necessariamente uma pessoa pode estar socialmente isolada e sentir-se sozinha.

 Vivemos rodeados de pessoas, mas não necessitamos apenas da presença de outros; carecemos também da presença de pessoas que nos valorizem, em quem possamos confiar, com quem possamos comunicar, sonhar, planejar e trabalhar em conjunto. Não surpreende, portanto, que a investigação realizada nesta área tenha revelado que as relações sociais,  não só em quantidade, mas especialmente em qualidade, são muito importantes.

 

Em isolamento social, o cérebro começa a agir de forma estranha para preservar sua sanidade

 

Pesquisas revelaram que entre o homem e camundongo há em comum cerca de 80% de seus genes

  • O estudo, publicado no periódico Cell, num experimento com camundongos, os animais ficaram duas semanas sozinhos e mostrou que o isolamento social prolongado leva a uma ampla gama de mudanças comportamentais, incluindo aumento da agressividade em relação a desconhecidos, medo persistente e hipersensibilidade a estímulos ameaçadores.
  • Um estudo da Universidade de Buffalo e da Escola de Medicina Monte Sinai (ambas dos Estados Unidos), publicado no site da revista Nature Neuroscience, revelou que isolar-se do convívio social por um período prolongado pode provocar alterações cerebrais que levam a mais isolamento. No experimento, ratos adultos foram isolados por oito semanas para que chegassem a um estado semelhante ao da depressão. Depois desse período, eles foram apresentados a um rato que nunca haviam visto antes. Apesar de serem normalmente sociáveis, aqueles que tinham sido isolados não mostraram qualquer interesse em interagir e evitaram o novo animal. Mas as mudanças não foram só no comportamento. A análise de tecido cerebral dos ratos isolados revelou que os níveis de produção de mielina no córtex pré-frontal, uma região do cérebro  que impacta no comportamento emocional, social e cognitivo com planejamento, tomada de decisão, controle inibitório, atenção e memória de trabalho, funções classificadas como funções executivas, estava significativamente menor. A mielina, também chamada de matéria branca do cérebro, é um material gorduroso que envolve os axônios dos neurônios e lhes permite uma condução mais rápida e eficaz de impulsos nervosos.

Diante dessas pesquisas há que considerar as diferenças culturais entre Brasil e outros Paíes, e o quanto podemos sofrer com isolamento social. A cultura é o conjunto de histórias, tradições, costumes, valores, crenças, rituais, normas que constituem um universo que caracteriza determinado povo. Contudo, toda cultura nasce e cresce a partir de determinados pilares de sustentação, que não podem e não devem ser permanentemente trocados, ocasionando o risco do desmoronamento, com perda inclusive do que se gostaria de preservar. O Brasileiro tem uma cultura expansiva onde a proximidade e o toque é comum. 

Enquanto a China por exemplo, tem uma cultura de interação social regida pelo confucionismo, que prevê a honra, dignidade, lealdade e respeito à antiguidade. Os valores mais importantes no confucionismo são: disciplina, estudo, consciência política, trabalho e respeito aos valores morais. O toque na china por exemplo, é permitido entre pessoas do mesmo sexo, mas pouco tolerado entre os indivíduos do sexo oposto.  

O isolamento social trará prejuízos a qualquer cultura, isso é fato, mas culturas mais contidas, com uma sobriedade característica podem tolerar melhor essa condição.

Outra alteração importante do Isolamento social e confinamento em um ambiente imutável, são as informações sensoriais disponíveis para nós e as formas em que as processamos oque pode mudar de forma imprevisível, porque cada um responde de uma forma diferente aos estímulos. Por exemplo, normalmente passamos a maior parte do nosso tempo atendendo e processando estímulos externos do mundo físico ao nosso redor. No entanto, a falta de estimulação e monotonia do nosso ambiente podem fazer com que nós passemos a dirigir a nossa atenção para dentro – dentro de nós mesmos – algo com o qual a maioria de nós tem pouca experiência.

Isto pode levar a um estado profundamente alterado de consciência. 

Podemos começar a questionar o que está acontecendo ao nosso redor; passamos a visitar um espaço da dúvida, do amanhã incerto. Quando estamos incertos, a primeira coisa que costumamos fazer é olhar para as reações dos outros para descobrir o que está acontecendo. E sem entender, nos aproximamos do excesso de informação, as vezes não confiáveis falsas ou exageradas e criam uma verdadeira armadilha angustiante podem te levar a um estado mental de constante alerta, prejudicando  o relaxamento e capacidade de discernimento Sem outros com quem compartilhar informações e reações, a ambiguidade torna-se muito difícil de resolver. Quando isso acontece, nossa mente pode correr rapidamente para as mais escuras conclusões possíveis, muitas vezes embasadas em fantasias construídas ao longo da vida, histórias ouvidas e imaginadas, etc

Situações-limite também despertam o lado mais primitivo do ser humano, no esforço de garantir a própria existência. Em diversos países, pessoas correram aos supermercados para estocar comida e mesmo produto não ter nenhuma relação direta com a prevenção do vírus como papel higiênico, deixando as prateleiras quase zeradas.

Tempos difíceis são os mais férteis para seres humanos revelarem excentricidades e manias difíceis de explicar racionalmente — seja em atitudes mais egoístas ou em pequenos atos de empatia…. numa situação concreta, como o bilhete pendurado no elevador oferecendo uma ajuda para fazer compras aos que por serem de grupo de risco deveriam se guardar mais.

Diante disso há ainda indivíduos com confusão ou a negação da realidade, uma condição extremamente humana, de um lado, todo mundo sabe que é um problema grave; do outro, a gente também resiste a perceber que essa é uma situação que sim, afeta todos nós”. 

O cenário atual e o isolamento social pode ser, por exemplo, um gatilho para desencadear transtornos importantes como síndrome do pânico que pode vir a ser uma doença que irá afetar muitas pessoas dada a realidade atual. A ideia de isolamento pode causar  transtorno que se agrava por nos depararmos com a incerteza de quando terminará.

Crises de choro, de pânico, taquicardia, dor de barriga, calafrios… São muitos os sinais que o corpo dá como resposta ao estresse. E são muitos os relatos atuais de pessoas que estão vivendo esses sintomas, no entanto para considerar tais reações como transtornos é necessário que eles sejam frequentes e  estejam afetando o sujeito de forma que ele não consiga suportar ou dar conta das atividades rotineira e comuns.
A forma como cada um responderá perante esta situação está relacionada com a personalidade e percurso de vida. Cada um tem o comportamento reflexivo de acordo com a sua personalidade, resultado da sua história de vida, experiências e nuances psicológicas. 

E como ela pode lidar com isso vamos discorrendo aqui nas Medidas para evitar o desconforto psicológico, tema já  abordado no blog Instituto Cuidar de psicanalise, https://institutocuidar.com/efeitos-psicologicos-da-quarentena-do-coronavirus-abordagem-psicanalitica/

  • Evite excesso de informação
    Procure assistir noticiários apenas uma vez ao dia, um noticiário que é capaz consolidar tudo o que precisamos saber para ficarmos atualizados.
  • A hiperinformação é uma armadilha angustiante quando falsas ou exageradas podem te levar a um estado mental de constante alerta, prejudicando o relaxamento e capacidade de discernimento comprometendo sua imunidade por stress.
  • Evite pensamento vitimistas
    Este sentimento traz a sensação de quem está ou foi sujeito a opressão, maus-tratos, arbitrariedades, discriminação etc., geralmente quem tem sempre essa percepção sua vida não avança porque o vitimíssimo não a deixa porque o Vitimíssimo distorce a realidade.
  • Evite Sentir a Solidão como percepção de abandono
    A solidão pode produzir tristeza em excesso e potencializar traços depressivos inerentes a cada pessoa.
    Utilize toda tecnologia disponível para manter-se conectado com a vida e com pessoas que você estima.
    Una-se aos seus familiares e amigos, promovendo boas conversas por meio de vídeo chamada pode ser uma boa alternativa nessa pandemia.
  • Evite pessimismo como padrão de pensamento
    O pessimismo impede a percepção de novos cenários.
    Podemos dizer que uma pessoa é pessimista quando ela sempre espera o pior de todas as situações e de outras pessoas, com pensamentos e atitudes negativas.
    A pessoa sempre enxerga o copo “meio vazio”, sem nem considerar que o copo poderia estar “meio cheio”. Você tem condições de pensar diferente a fim de aliviar as dores produzidas pelo momento atual.
  • Evite não fazer nada – A inatividade pode produzir DESÂNIMO!
    Se ócio não for criativo, pode conduzir a um estado de letargia existencial. Encontre nas atividades manuais e nas atividades físicas que possam ser executadas em casa um meio para aliviar desconfortos e para preencher o tempo.
  • Evite a agenda sem compromisso. Estabeleça rotinas. Trabalhar em regime de home office, pode ser uma experiência nova e eventualmente não prazerosa. Essa nova realidade, ainda que temporária, pode desorganizar a rotina diária e produzir algum tipo de insegurança ou angústia.
    Organize seu tempo, incluindo períodos voltados a sua atividade profissional.Respeite intervalos como o almoço, pausas para o café e término de expediente.
    Não abra mão do tempo livre!
    Leia, interaja com outras pessoas e descanse!

Lembre-se: Gerencie sua agenda, considerando o momento atual sem perder de vista seus propósitos mais elevados.

  • Evite viver numa perspectiva individualista
    Possivelmente dividimos nosso espaço de confinamento com outras pessoas no núcleo familiar.
    Sua individualidade é importante, mas dimensão coletiva não pode ser ignorada.É importante que todos tomem consciência das dificuldades atuais, exercitando empatia, firmando acordos e regras de convívio, e buscando um elevado espírito de colaboração e apoio mútuo, a fim de tornar a vida agradável durante esse período.
  • Evite observar uma única perspectiva – Crianças, Idosos e portadores de deficiências, pacientes com baixa imunidade e doenças crônicas devem ser ouvidos e priorizados, pois tem perspectivas e necessidades peculiares. Conversar, escutar, compreender e estabelecer rotina solidária inclusiva é importante para que as limitações impostas pela pandemia possam ser assimiladas e seguidas. Adapte as restrições diminuindo a sensação de perda e impedimento.
  • Ative o circuito de altruísmos
    Onde você pode ser útil, onde você pode transbordar em sentimento, conhecimento ou ações em favor do outro.
    Ative tudo que você pode fazer diante da consciência da mortalidade. O ser humano, ao ser consciente de sua finitude, é um ser precioso porque cada instante que vive vale infinitamente. De alguma maneira, sua finitude outorga valor ao momento.
    Aproveite para viver cada momento com seus filhos, companheiros quem está próximo para expressar todo seu amor e o quanto ele é importante para você.
    E por fim inspirada num texto e modificando-o um pouco sem autoria que retrata muitas das nossas angustia,

Um virus alcançou tamanha proporção que que nos obrigou a sairmos do nosso lugar, ampliar a nossa visão, ao nosso redor muita coisa já mudou. De repente, os combustíveis baixaram, a poluição baixou, pessoas passaram a ter tempo, o trabalho ficou mais flexível, famílias passaram a permanecer mais unidas.

Se antes reclamávamos de não ter tempo, agora temos tempo de sobra
Sobrou tanto tempo que muitos nem sabem o que fazer com ele. Silenciosamente, voltamo-nos para dentro de nós e passamos entender e passamos a perceber nossas hierarquia de valores – oque realmente é importante!

Todos estamos envolvidos sim, corremos o mesmo risco e há que render a generosidade ou necessidade que quem não pode abrir mão de estar em suas casas, como profissionais de saúde e outros serviços que garante nossos isolamento social , estes sim tem um grande desafios. São os heróis em uma guerra contra um inimigo invisível. Eu vejo a angustia de todos vocês me sensibilizo e faço minha parte, façamos todos a nossa parte.

Que este momento sirva para refletirmos sobre nossas escolhas e que não seja necessária a presença do medo para nos conduzir a tomar medidas melhores para nossas vidas.Você tem condições de ressignificar o momento atual e dar a sua contribuição

E uma alternativa dentro dessa condição psíquica que me propus a trazer você tem o auxilio da Terapia virtual, os atendimentos online são uma forma de não interromper seu processo terapêutico e para poder dar suporte a quem está transbordando em suas angustias,  mesmo em tempos de afastamento físico. “É algo novo, mas necessário, uma condição que mantem uma atendimento de qualidade, desde que haja um espaço silencioso, sigiloso e com uma boa internet”.

Não é fácil enfrentar o desconhecido, notícias falsas, isolamento social, tudo isso gera muita ansiedade e para quem não conhece acompanhe nosso perfil cursos, palestras, material de informação e conteúdo psíquico curte lá institutocuidar.com