Durante toda a nossa existência nos deparamos com situações, desafios e dificuldades com a qual nem sempre sabemos nomear, a forma como é possível encarar os desafios que encontramos ao longo do caminho pode muitas vezes superar situações em que nos deparamos com o medo!

Já pensou quantas situações você viveu nos últimos anos que sentiu medo?

Como conseguiu enfrentar e superar esses medos?

Pode ter sentido uma apreensão, preocupação, ansiedade, somente sabemos que de alguma forma em algum momento o medo foi um dos maiores obstáculos para a superação de um desafio na busca de um crescimento pessoal ou profissional.

O medo se tornou o maior problema psíquico de todos os tempos, fazendo parte do cotidiano de todos nós, é aquele monstro indesejável, que chega não se sabe de onde e domina nossa estrutura psíquica.

medo não é uma particularidade humana. Podem-se verificar ações amedrontadas em diversas espécies de animais. De fato, o medo é fundamental para a sobrevivência, seja qual for o grau de complexidade da forma de vida animal. É uma reação a uma situação de perigo, real ou imaginário. Dessa forma, não pode ser visto como necessariamente patológico. O medo patológico é denominado fobia.

A psicanálise e o medo

Freud, em Inibições, sintomas e ansiedade 1926 a 1996, apresenta uma explicação para a constituição da fobia de um dos mais famosos casos por ele, indiretamente, analisado: o pequeno Hans. O garoto era assolado por um intenso terror de cavalos ou, mais especificamente, medo de sair de casa porque um cavalo iria mordê-lo. Nesse caso, Freud interpreta que o cavalo é um substituto para o pai, frente ao qual o menino tinha sentimentos ambivalentes de amor e ódio. De fato, para Hans, o medo é um sintoma.

Se ‘Little Hans’, estando apaixonado pela mãe, mostrara medo do pai, não devemos ter direito algum de dizer que ele tinha uma neurose ou fobia. Sua reação emocional teria sido inteiramente compreensível. O que a transformou em uma neurose foi apenas uma coisa: a substituição do pai por um cavalo. É esse deslocamento, portanto, que tem o direito de ser denominado de sintoma, e que, incidentalmente, constitui o mecanismo alternativo que permite um conflito devido à ambivalência ser solucionado sem o auxílio da formação reativa.

A figura paterna na Psicanálise representa justamente a castração. É a partir do caso de Hans que Freud identifica a origem da fobia no medo que a criança tem de ser castrada pelo pai e nos sentimentos hostis a ele. Em síntese, O medo de Hans é um substituto para a figura paterna.

O caso de Hans é paradigmático

Freud o toma, no livro citado, como uma explicação fundamental da origem do sintoma neurótico. Como dissemos anteriormente, nem todo medo é psicopatológico. Por outro lado, se partimos da conjectura de que todo medo é um sintoma, ele precisa ter origem na angústia original da castração.

A angústia da castração é anterior a toda inibição sintomática pois é ela própria anterior à formação do eu. Para argumentar a favor disso, pensemos no momento inicial da vida humana.

De acordo com os pontos de vista psicanalíticos mais recentes, o aparelho mental compõe-se de um ‘id’, que é o repositório dos impulsos instintuais, de um ‘ego’, que é a parte mais superficial do id e aquela que foi modificada pela influência do mundo externo, e de um ‘superego’, que se desenvolve do id, domina-o e representa as inibições do instinto que são características do homem. A qualidade da consciência, também, conta com uma referência topográfica, pois os processos no id são inteiramente inconscientes, ao passo que a consciência é a função da camada mais externa do ego, que se interessa pela percepção do mundo externo.

eu e o super-eu

eu e o super-eu são topos psíquicos que só podem se estruturar a partir da inserção do indivíduo no meio social, ou seja, no mundo da linguagem. São deformações do próprio id pelo princípio da realidade. De fato, essa instância só é capaz de reconhecer o princípio de prazer. A eloquência de Freud o leva a afirmar que a sede real da angústia é o “eu”, assim como a angústia precisa ser anterior ao “super-eu”. Assim, com exceção do id, toda a formação do psiquismo depende da angústia, sendo ela, como diz J. D. Nasio, o cerne do “eu”.

Desta forma, chegamos ao ponto de afirmar que o medo não é apenas uma necessidade para a sobrevivência, mas também uma forma de constituição da própria personalidade. O medo da castração é um dos fatores que constituem o sujeito. As relações que a criança terá com o mundo externo serão traços no psiquismo e modelam, assim, o eu e o super-eu. Essa deformação provoca angústia, da qual o medo é uma consequência e um sintoma. Apenas em níveis inaceitáveis pela sociedade ele se torna uma fobia, ou seja, uma psicopatologia.

A partir desse contexto que Freud nos trás sobre o medo, entendemos que o medo é parte da nossa natureza.

por que lutamos contra?

O que podemos fazer é encontrar os meios mais saudáveis e efetivos de enfrentamento.

Quando estamos com medo, o corpo costuma dar sinais físicos. As mãos podem suar, as pernas tremem, a fala pode ficar trêmula. Há uma diversidade de indícios corporais e emocionais do medo.

O ideal segundo a psicanálise não é omitir o medo ou disfarçar, quem tem medo pede abrigo, ajuda.

Devemos admitir, partilhar e enfrentar para que seja possível superar e ficar menos vulnerável diante dos medos ao longo da nossa jornada.

Não é positivo lidar com o medo de forma que seja visto como um tabu, como por exemplo dizendo que adultos devem ser fortes e não devem ter medo. Quando você compartilha você consegue se fortalecer, e preparar-se para aprender a lidar com o medo. O medo pode ser algo que nos mobilize a seguir e não nos paralise.

Como você está cuidando dos seus medos? Você acolhe esse sentimento ou reprime?

Se você consegue admitir o medo, já está dando o primeiro passo para o seu crescimento. Faça exercícios constantes, ressignifique o sentido. Questione-se:

  • O medo de que estou sentido agora é do que?
  • Qual é a consequência? O que pode acontecer?

Avalie suas respostas, seja sincero com você mesmo, dessa forma você pode entender o medo de forma mais racional. Assim você pode limitar uma cadeia de pensamentos negativos. Na medida que você questiona, você reconstrói e você pode iniciar uma nova fase em que irá encontrar forças para novas possibilidades, superação, conquistas.

O medo pode ser seu aliado para incentivá-lo a descobrir novos caminhos e ganhar espaço dentro da sua estrutura psíquica antes desconhecida. Liberte-se, compartilhe os seus medos, e tenha uma vida mais plena.

Carla Copetti – Psicóloga e Psicanalista em formação