Queridos terapeutas,

 

Saudades… venho em busca de socorro novamente, mas desta vez não para meus devaneios que derivam das minhas observações do mundo, do ser humano.

Essas nossas conversas estão sensibilizando algumas pessoas que têm me procurado para pedir ajuda em seu nome.

Pois é, não é o máximo? Muitas pessoas têm me procurado para que eu fale em seu nome, para que eu dê voz (palavras, no caso) as suas angústias, neuroses, traumas, dores, bloqueios… pedem para que eu leve a vocês a incompletude de suas vidas, querem juntar as peças do quebra-cabeça de suas vidas e entregá-las… a vocês caros terapeutas, para que os ajudem a encaixar as peças e a encontrar as que estão perdidas.

Veja quanta confiança!!!

Então, por enquanto, deixarei de lado minhas observações pessoais sobre o mundo e os consequentes questionamentos que tenho enviado a vocês. Vamos ajudar àqueles que nos procuram???

Vamos lá:

Ana (nome fictício) tem 57 anos. Eu a conheci ainda na primeira infância devido ao relacionamento bastante próximo entre nossas famílias, mas mantivemos pouco contato, talvez pela distância ou pelo rumo natural que as vidas seguem; não sei bem qual a razão. Então, o relato de sua infância e vida seguirá basicamente pelas suas próprias palavras:

“Morávamos meu pai, mãe, irmão mais velho (3 anos), avós paternos e maternos. Eu ainda era muito pequenininha quando meus avós paternos morreram, então a única coisa de que me lembro é que minha mãe cuidava deles, que eram doentes. Apenas isso.

Quando eu tinha 6 anos meu avô materno faleceu, e esse foi o primeiro contato que tive de fato com a morte; quero dizer que eu senti realmente a perda já que éramos muito apegados. Meu pai trabalhava o dia inteiro, como todo provedor de família, e minha mãe dividia seu tempo entre os afazeres domésticos, os cuidados com minha avó materna, que faleceu quando eu tinha 18 anos, e a educação dos filhos.

Eu era muito apegada ao meu pai, e meu irmão à nossa mãe. Até o fim da vida de minha mãe, há três anos, ela não conseguiu minimizar, ou pelo menos disfarçar essa preferência por meu irmão. Dizia, como forma de se desculpar, penso eu, que ele precisava mais de apoio já que, ora ele tinha mais problemas que eu, ora porque era casado tinha suas responsabilidades e além do mais morava distante.

Já quando eu tinha 28 anos passei por um período muito difícil. Perdi meu pai, um homem atencioso e protetor e, logo em seguida, meses depois, tive um problema de saúde que me obrigou a uma cirurgia e, por conta disso, fiquei impedida de ter filhos. Também perdi o emprego quando voltei da licença médica. Não sei se foi devido à cirurgia, não sei bem, mas o certo é que eu nunca casei, mas tive namoros, romances e um relacionamento mais profundo, este último o mais duradouro, e foi com um homem casado com o qual rompi há pouco tempo. Um relacionamento do qual não me arrependo, mas sinto um incômodo dentro de mim, como se eu tivesse de alguma forma violentado minha ética pessoal, ou bússola moral, não sei bem.

Consegui um novo emprego depois dessa fase ruim, e nele permaneci por 16 anos. Vale ressaltar aqui que nesse novo emprego conheci o homem com quem manteria o longo relacionamento do qual falei. Minha mãe e eu nos aproximamos, já que agora éramos apenas nós duas, mas nunca deixou de existir a proteção exagerada ao meu irmão, obrigando-me a cumprir exigências que eu considerava além de minhas capacidades ou obrigações.

A empresa onde permaneci por 16 anos teve problemas financeiros e fechou e, depois desse emprego, não consegui mais me acertar em qualquer outro trabalho. As considerações que me assombram são estas: Tenho dificuldade em confiar na minha capacidade. Não consigo lidar com cobranças ou situações que me expõe, como se seu estivesse sendo analisada ou testada. Sempre acho que tudo que tento fazer não vai dar certo. Fico assustada com as responsabilidades profissionais, medo de errar e cobro de mim uma perfeição que sei que não existe. Eu me demiti de todas as empresas por onde passei assim que a cobrança se tornava excessiva, pois sentia como se minha energia estivesse sendo sugada.

Existe algo de errado comigo?”

Bem, queridos terapeutas, essa é a história. O único complemento que faço à narrativa de Ana é a de que, depois que saiu do emprego de 16 anos, ela não mais trabalhou no mesmo ambiente profissional com o homem com quem se relacionou por cerca de 25 anos, mantendo apenas o relacionamento afetivo.

Podemos orientá-la?

 

Abraços, meus queridos.

 

Soraya

 

Querida Soraya,

 

Agradecemos a sua confiança e a de Ana em nós depositada.

Sempre nos norteamos por busca de evidências que justifiquem as nossas hipóteses e, neste caso, por falta do contato com Ana e maior compreensão dos fatos narrados, nos atreveremos a tentar dar um norte diante de possíveis sintomas manifestos nesta história.

Ousamos fazer uma analogia quanto as sucessivas perdas de parentes queridos e próximos, e o quanto ela pode não ter eficientemente processado esses lutos.  Mais do que o luto, a melancolia pelo investimento emocional colocado nos personagens, ( Leia Luto e Melancolia – Melanie Klein) o que pode tê-la levado, diante de pressões, a abdicar do trabalho antes que o trabalho abdicasse dela, bem como a sustentação de muitos teoristas, dentre eles Melanie Klein e Erikson, quanto a fase de onipotência e essas perdas eventualmente terem sido um duro rompimento na percepção de sua falibilidade. É possível, então, que suas queixas estejam embasadas na falsa sensação de que nela não há estrutura para lidar com rompimentos e falibilidades. Investigaríamos também os relacionamentos, com ênfase naquele que a obriga a confrontar seus valores, mas que lhe traz o benefício da perda subjacente sem o necessário investimento de manutenção de relacionamento, facilitando a correspondência com a parte boa da relação, sem as pressões que ela diz não ter habilidades para lidar. Entretanto, o que podemos ver é que, muitas vezes, o inglório desejo de nos afastarmos do que nos causa dor cria atalhos secundários, e que acabam por nos levar a ficar cara a cara com ela novamente. Ana não consegue mais se corresponder sadiamente com o profissional, e talvez haja nela um enorme vazio pelos sucessivos vínculos não consistentes e sólidos. Será que é por isso que ela busca um intermediário para suas questões internas e dolorosas?

Poderíamos também explorar a queixa com a mãe, pois vemos nos relatos dela a necessidade de maior vínculo, o que não permite a ela perceber que talvez tenha existido saciedade afetiva pelo vínculo paterno e também pelos parentais (avós). Parece que edipianamente essa relação assim se deu, entretanto voltamos a citar Kelin e sugerimos a investigação de INVEJA E GRATIDÃO, pois Ana perde tempo invejando a relação do irmão com a mãe e não a valorar as suas relações, principalmente com o pai, o que novamente nos remete às relações amoras. A inveja aqui citada não se trata de um mecanismo como descrito em conceitos religiosos, mas sim de uma constituição do inconsciente, a qual lhe faz trilhar por caminhos repetitivos sem ser capaz de retomar parte de sua onipotência e de ser regente de seu destino.

No caso de Ana, não é possível um diagnóstico preciso neste momento, mas ao leitor gostaríamos de informar que estamos diante de um emaranhado onde vemos algumas pontas soltas. Para quem domina a técnica psicanalítica e seus teoristas e pensadores, essas pontas não estão efetivamente soltas e, ao puxar uma delas, é possível conseguir grande êxito em várias esferas da vida de Ana, pois toda manifestação neurótica e dolorosa está relacionada e interligada a um núcleo central. Cabe ao terapeuta decodificar, desembaraçar esses nós, e chegar a esse núcleo a fim de promover o bem-estar e autonomia diante da vida.

Não temos a pretensão assertiva de nomear esse conflito nuclear, entretanto evidências nos empurram por suspeitas a serem validadas em sessão.

O processo terapêutico inicialmente, ou como primeira linha de investigação, levaria a ressignificação de perdas e a conscientização de que o medo de perder pode ter tirado sua vontade de ganhar.