acques Marie Émile Lacan – nasceu em Paris no dia 13 de abril de 1901, em uma família de fabricantes de vinagres de Orléans, de sólida tradição católica e conservadora.

Progressivamente, deixou de utilizar o nome Marie, que havia sido acrescentado ao seu nome em alusão à Virgem Maria. Seu pai, Alfred Lacan (1873-1960) era um homem de aparência física fraca. Émilie Baudry (1876-1948), sua mãe, apresentava-se mais intelectual e muito dedicada à religião.
Lacan era o filho primogênito e teve três irmãos – Madeleine, Raymond e Marc-François.

Na adolescência rompeu com o catolicismo e passou a dedicar-se, com afinco, à vanguarda literária – leu Baruch Spinoza, Nietzsche, Charles Maurras, os surrealistas e James Joyce. Foi assíduo frequentador de livrarias e grupos de escritores e poetas.

Em 1934, casou-se com Marie-Louise Blondin (1906-1983), Malou. Com Malou teve três filhos – Caroline, Thibaut e Sibylle.

Em 1937, apaixonou-se por Sylvia Maklès-Bataille (1908-1993), mantendo com ela um romance duradouro, apesar de ambos ainda permanecerem oficialmente casados com seus cônjuges legítimos. Em 1940, encontrava-se em uma situação delicada: Malou, sua esposa legítima, estava grávida de Sibylle (nascida em 26 de novembro de 1940) e Sylvia Bataille estava grávida de Judith, a quarta dos filhos de Lacan (nascida em 3 de julho de 1941). Judith foi registrada apenas com o sobrenome Bataille e só pôde usar o nome do pai em 1964. Essa circunstância viria a ser uma das determinações inconscientes da elaboração do conceito lacaniano de Nome-do-Pai. A união oficial de Lacan e Sylvia Bataille somente veio a ocorrer em 1953.

Veio a falecer de câncer no cólon em Paris no dia 09 setembro de 1981.

Lacan, formou-se em Medicina e se especializou em psiquiatria, seus primeiros estudos de casos o levaram a formular a teoria do “estádio do Eu”, processo de reconhecimento pelo qual passa a criança ao se observar no espelho.

Psicanálise lacaniana

 

psicanálise lacaniana tem como base principal a consideração do inconsciente estruturado como a linguagem. O que isso quer dizer? Que o analista lacaniano buscará os “pedacinhos” de inconsciente que “escapam” na fala, nos sonhos, entre outros.

 

A Psicanálise Lacaniana constitui como um sistema de pensamento que promoveu diversas alterações em relação à doutrina e clínica propostas por Freud. Lacan criou conceitos, além de ter criado uma técnica de análise própria. Sua técnica diferenciada surgiu a partir de uma metodologia diferente de análise do trabalho do Freud. Principalmente, em comparação a outros psicanalistas cujas teorias divergiram de seu predecessor.

Lacan é considerado como o único dos grandes intérpretes de Freud que procurou retornar literalmente aos seus textos e à sua doutrina. Isto é, Lacan não apenas o estudou com o intuito de ultrapassar ou de conservar a sua doutrina.

Dessa forma, a sua teoria acabou se tornando uma espécie de revolução às avessas. Como se fosse uma substituição ortodoxa da doutrina preconizada por Freud. Um fator a ser relevado é que não se sabe se Lacan e Freud se conheceram pessoalmente.

Muitos estudiosos consideram a obra de Lacan complexa e difícil de compreender. Entretanto, pelo fato de sua obra ter partido da obra de Freud, isso acaba facilitando ou orientando sobre como estudá-la. Portanto, torna-se importante a compreensão da obra de Freud, para que então se possa compreender a obra de Lacan.

Uma das razões que dificulta na compreensão da obra de Lacan é o seu próprio modo de escrever. Ele escreve de uma forma que não leva a uma posição claramente definida. Seu estilo de escrita usualmente empregado, assim, acaba se diferenciado a sua obra da obra de Freud.

Dentro disso, as contradições acabam sendo frequentes na obra de Lacan. Ele afirmava que sua obra propunha um retorno à obra de Freud, como num movimento de retomada. Não obstante, por exemplo, ele se opunha claramente à ciência naturalista por Freud proposta.

 

Qual era a interpretação de Lacan para a psicanálise?

 

Para Lacan, a psicanálise tinha uma única interpretação possível, que era a interpretação linguística. Dentro dessa concepção, ele dizia que o inconsciente tinha a estrutura de uma língua. Expressão essa que ficou muito conhecida em sua obra.

Alguns fatores ou características importantes devem ser considerados para compreendermos a obra de Jacques Lacan. Primeiramente, devemos considerar que Lacan acreditava no inconsciente. Outro fator é que ele tinha um enorme interesse pela linguagem. Além disso, sua obra pode parecer simples e clara e, ao mesmo tempo, ela pode ser complexa e obscura.

Freud criou uma estrutura para se compreender a mente baseada em três elementos: o id, o ego e o superego. Lacan estabeleceu a sua trilogia, usando como elementos o imaginário, o simbólico e, às vezes, o real.

Ao afirmar que o mundo infantil é o alicerce à formação da identidade adulta, Lacan concorda com a teoria freudiana. Para Lacan, entretanto, as fantasias e a agressão presentes na consciência infantil misturam-se para formar o indivíduo, através da linguagem.

 

De acordo com a teoria de Lacan, não vivemos em um mundo de realidades. Nosso mundo é composto de símbolos e de significantes. O significante é algo que representa outra coisa.

 

Características de Lacan

 

Lacan não apenas afirma que o inconsciente é como uma língua. Ele também propõe que, antes da língua, não existe o inconsciente para o indivíduo. É apenas quando a criança adquire uma língua é que ela se torna um sujeito humano, isto é, quando ela passa a fazer parte do mundo social.

Outra característica exposta na obra de Lacan, e que o diferencia de Freud e de seus seguidores primários é algo por ele denominado de “A Fase do Espelho”. Nesta teoria, num primeiro momento, o bebê se encontra em uma fase desordenada. Sem saber onde ficam os seus limites físicos e emocionais. De repente, descobre uma imagem de si mesmo como um ser completo, um ser coerente e maravilhoso. Dessa forma, ele chega à ideia de si mesmo como uma identidade. Quando ele se vê no espelho, reconhecendo-se ou imaginando-se como um ser coeso.

Com relação aos sonhos, assunto muito abordado na obra de Freud. Freud alegava que os sonhos, de certa forma, representam a realização de um desejo. Já Lacan, considerava que o desejo de um sonho seria uma espécie de representação do “outro” de um sonhador, e não uma forma de desculpar o sonhador. Sendo assim, para ele o desejo seria o desejo desse “outro”. E a realidade é somente aos que não podem suportar o sonho.

Em análise, Lacan preferia que não houvesse interferência o discurso do paciente. Isto é, ele deixava que esse discurso fluísse, a fim de que a própria pessoa em análise descobrisse as suas questões. Já que, ao interferir no discurso, o analista poderia contaminá-lo com os seus significantes, com as suas interpretações.

Dessa forma, vemos que, apesar de ter declarado que a sua primeira intenção era retomar as teorias de Freud. Lacan acaba indo além da obra de seu predecessor. E, assim, a sua obra, em muitos momentos, acaba se diferenciando e progredindo em relação aos estudos freudianos.

 

Frases de Lacan

 

  • A verdade só pode ser dita nas malhas da ficção.
  • Amar é dar o que não se tem a alguém que não quer.
  • Só é verdade na medida em que é verdadeiramente seguido.
  • Por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis.

 

Livros

  • Nomes-do-pai
  • O triunfo da religião
  • Estou falando com as paredes
  • O seminário
  • Escritos
  • Os complexos familiares
  • Outros escritos
  • Televisão
  • O mito individual do neurótico
  • Meu ensino
  • Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade
  • A querela dos diagnósticos

Legado

Lacan lecionou seminários regulares na Universidade de Paris em 1953, tendo se debruçado e reinterpretado a fortuna crítica de Sigmund Freud.

Jacques Lacan foi, assim, um dos psicanalistas que, não obstante partilhar pontos de partida com Sigmund Freud, assumiu várias dissensões em relação às suas ideias. O inconsciente, conferiu uma outra estrutura; ao desejo, uma nova abordagem; ao ser humano, uma nova perspectiva. A psicanálise tomou uma lufada de ar fresco, apesar de não estar imune a críticas vindas dos vários foros da sociedade. Porém, o repertório que os diferentes psicanalistas trazem para a realidade, que os lê, os interpreta e lhes atribui significados e contextos, é seguramente valioso e impossível de passar ileso. 

Lacan atendeu a pontos importantes e deixados em aberto e, mesmo que não tenha conseguido respostas indiscutíveis a problemas intemporais, não se coibiu de trazer a filosofia, a antropologia e a linguística como disciplinas capazes de secundar este trabalho. De Freud, muitos partiram, mas poucos aqueles que, sem concordar, permanecem como pontes para novas fontes.

Carla Copetti – Psicóloga e Psicanalista em formação