Os sonhos sempre exerceram acentuado fascínio na humanidade, desde os tempos mais antigos. Porque é uma tem que desperta tanto interesse entre as pessoas? Porque é importante decifrar o enigma que os sonhos representam para cada uma das pessoas?

O sonho é uma experiência única que tem explicação de acordo com a sua fonte de conhecimento. Existem várias linhas de pensamento dentro da ciência, religião, cultura, onde há um entendimento distinto um dos outros.

Vamos aqui descrever sob o ponto de vista da Psicologia e da Psicanálise, sem a pretensão de esgotar o tema, mas sim com o objetivo de realizar uma breve análise.

A psicologia se dedicou mais em desvendar o funcionamento do sono. Dormir resulta em sonhar e sonhar é uma necessidade neurofisiológica. Estudos realizados no campo da Psicologia tem determinado que a privação do sono pode ocasionar diversas e sérias consequências.

A Psicologia, apoia-se na Neurociência e descreve que existem dois tipos de sono: NREM e REM.

O NREM, que tem quatro estágios de sono, e o REM, que é o último ciclo do processo de sono. Essas etapas duram em média 90 a 110 minutos e apresentam repetição durante a noite.

Durante o sono REM os olhos saltam de um lado para o outro, como se estivessem observando uma cena.

 

OS 4 estágios do sono são:

 

O primeiro estágio

 

Sono leve, onde ocorre o inicio do sono, tem a duração de alguns minutos, quando o indivíduo sente-se relaxado, com os pensamentos mais ou menos descoordenados já neste estágio podem ocorrer os sonhos.

 

O segundo estágio

 

É o sono intermediário, onde já um relaxamento maior, podendo ocorrer experiência sensoriais sem base no real, e já ocorre acentuada descoordenação corporal com sensações de queda.

 

O terceiro estágio

 

É identificado pelo início do sono profundo, quando o indivíduo se torna insensível aos sons e mais dificuldades para ser despertado.

 

O quarto estágio

 

O sono mais profundo, há total relaxamento, com mais completo desligamento do mundo exterior.

Freud como médico neurologista de formação, era fortemente influenciado à ciência da época, e para avançar em seus conceitos distancia-se da biologia e da medicina e mergulha na psicologia profunda. Já havia desbravado e colonizado o inconsciente quando em 1900 traz uma obra colossal “ Interpretação dos Sonhos” e dá um sentido de que os sonhos tem um conteúdo psicológico fundamental, trazendo assim uma nova visão sobre o estudo da mente. Antes, os sonhos eram tidos como meros efeitos de um trabalho desconexo, provocados por estímulos fisiológicos. Com os conhecimentos advindos dos estudos de Freud, trouxe os sonhos para o campo da psicologia e demonstrou que estes são tão somente a realização de desejos disfarçados ou não, satisfeitos em pleno campo psíquico.

 

O que é o sono para Freud?

 

Para o pai da Psicanálise: “O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente”.

Freud, nessa obra, elabora o primeiro modelo do aparelho psíquico. Onde o psiquismo é composto por dois grandes sistemas: inconsciente, pré-consciente e consciente, que são separados pela censura, onde através do mecanismo do recalque, mantem certas representações inaceitáveis fora do sistema consciente. Essas representações passam a exercer uma pressão para se tornarem conscientes. Ocorrendo assim uma espécie de jogo de forças, entre os conteúdos reprimidos e os mecanismos repressores. O resultado desse conflito há produção das formações do inconsciente: os sintomas, sonhos, lapsos e chistes.

Freud afirma em sua obra que os sonhos são fenômenos psíquicos onde realizamos desejos inconscientes.

A elaboração de um sonho, segundo Freud (1915), ocorre porque “existe algo que não quer conferir paz à mente. Um sonho, pois, é a forma com que a mente reage aos estímulos que a atingem no estado de sono”.  Alguns dos estímulos dos quais Freud fala podem ser restos diurnos, sensações fisiológicas. Outros estímulos podem ser os pensamentos ocultos, inconscientes, formados por desejos antigos, recalcados pela censura do Superego.

-Para uma interpretação dos sonhos existem quatro tipos de fontes de sonho:

Excitação sensorial externa – objetivas, onde todo ruído indistintamente percebido provoca imagens oníricas correspondentes;

Excitações sensoriais internas – subjetivas, dos órgãos dos sentidos;

Estímulos somáticos internos – orgânicos;

Fontes psíquicas de estimulação – material importante para chegar ao inconsciente.

Dessa forma a interpretação de um sonho é muito mais complexa do que o senso comum costuma interpretar, pois o mesmo conteúdo pode guardar sentido amplamente diferente, variando de indivíduo para indivíduo ou situações diferentes.

 

A linguagem dos sonhos

 

Para Freud, os sonhos tem uma linguagem predominantemente revelada por símbolos. Para entender o conteúdo de um sonho, é necessário compreender o que aquele símbolo representa em um determinado sonho. A simbologia dos sonhos não só está vinculada ao contato que o criador do sonho teve com o objeto, mas também com a forma que ele se relaciona emocionalmente com esse objeto.

Um exemplo, o mar pode apresentar distintas simbologias, variando de indivíduo para indivíduo. Para alguns o mar pode ter um significado de destruição, para outros, invasão, ou ainda, ter um significado de paz, liberdade.

A interpretação de um sonho requer, pelo menos, que se conheçam as principais significações simbólicas, o que deve ser elaborado através do material derivado das associações livres.

A linguagem simbólica dos sonhos é um desafio para o psicanalista, trazer a luz o conteúdo dos sonhos é com certeza a via para adentrar no inconsciente.

Os sonhos permitem que o nosso inconsciente revele a nós os desejos mais reprimidos e muitas vezes “proibidos”, desejos recalcados no qual não temos acesso.

Freud, sempre considerou que os sonhos podem ser interpretados e estabeleceu um contraste entre o “conteúdo manifesto” e o “conteúdo latente” dos sonhos.

 

O que tem no conteúdo dos sonhos?

 

O conteúdo manifesto é o relato descritivo do sonho feito pelo sonhador e o conteúdo latente é o conjunto do que vai sendo revelado a partir de uma análise.

 

Simplificando, o conteúdo manifesto é o produto do trabalho do sonho que consiste em não deixar aflorar na consciência algo proibido pela censura; enquanto o conteúdo latente é o produto da interpretação do analista na busca do verdadeiro significado do sonho.

 

Dependendo do sonho, essa relação pode ser muito simples ou muito complexa, há, porém, um elemeno constante. O conteúdo latente é inconsciente, enquanto o conteúdo manifesto é consciente.

 

Com base na relação entre conteúdo manifesto e latente, os sonhos podem ser divididos em três categorias: os que fazem sentido, os que não fazem sentido e os confusos e desconexos (a deformação no sonho é um ato de censura). Quanto mais rigorosa a censura, maior o disfarce dos sonhos para não vir à tona o desejo recalcado – a censura existe a fim de impedir a produção de angústia ou afetos aflitivos. Por isso, quando um desejo reprimido foge da censura, total ou parcialmente, ocorrem os “sonhos de angústia” ou “sonhos de ansiedade”.

 

Técnica de associação

 

Através da técnica de associação livre do paciente, o analista consegue desvendar gradativivamente o que está por trás do sonho, ou seja, o material latente (sentimentos reprimidos, desejos e pensamentos inconscientes).

 

A elucidação dos sonhos é crucial para a compreensão e solução das neuroses. Traze-los para a consciência é uma tarefa árdua onde requer muita dedicação do sonhador e de quem está realizando a análise.

 

Mergulhar no nosso inconsciente, para dentro de nós mesmos, pode propiciar uma vida psíquica mais plena e equilibrada. Pode ser um aliado valioso para a compreensão da nossa estrutura, uma chave preciosa de autoconhecimento e desenvolvimento.

 

“Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais, somos também o que lembramos e aquilo que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos os enganos que cometemos, sem querer”. Sigmund Freud

 

Carla Copetti