Temos vivido dias difíceis e incertos, um triste cenário, e fica evidente a fragilidade humana diante dos gigantescos desafios que nos apresentam o dia a dia.

Ser frágil não significa ser fraco.

Significa acima de tudo, ver e entender a realidade a partir de uma perspectiva mais íntima, uma maior percepção interna.

No entanto, isso implica por sua vez num universo complexo e a subjetividade de cada ser, o universo da vulnerabilidade emocional. 

 

O que é a fragilidade?

A Fragilidade a qual nos comprometemos a falar corresponde, à falta de ferramentas para gerenciar nossos estados internos mais complexos, bem como a uma clara dificuldade em lidar com as dificuldades mais simples da vida cotidiana.

É importante reconhecermos nossas fragilidades e limitações, bem como nossa vulnerabilidade diante das demandas diárias.

A fragilidade humana se manifesta de uma forma bastante clara, quando, por exemplo, nos deparamos com incertezas que nos deixam confusos e desorientados, quanto aos desafios que estamos enfrentando e isso nos traz medos e nesta condição ficamos sensíveis e tristes.

Diante do medo, os indivíduos se conscientizam da sua fragilidade, se conscientizam que não são inabaláveis e indestrutíveis e tendem a aliar-se a outros frágeis pela solidariedade a fim de se reconhecer, se unir e preferencialmente transformar em algo melhor.

Foucault, em O corpo utópico, coloca que ao adoecermos ou sentirmos dor tornamo-nos coisa.

Coisa frágil. Para a psicanálise, o corpo, essa forma cheia de órgãos e líquidos que pode morrer por acaso, não se reduz ao registro biológico, é um corpo pulsional, um corpo afetado, um corpo que afeta, um corpo com história e pré-história.

Podemos sentir uma dor causada por uma doença orgânica ou provocada por uma patologia psíquica: não há corpo sem psiquismo nem psiquismo sem corpo. Ainda assim, podemos estar onde nosso corpo não está, podemos brincar, devanear, fantasiar, criar a partir ou apesar do próprio corpo.

Relembrando a metáfora freudiana do cristal:

“Se atirarmos ao chão um cristal, ele se parte, mas não em pedaços ao acaso. Ele se desfaz, segundo linhas de clivagem, em fragmentos cujos limites, embora fossem invisíveis, estavam predeterminados pela estrutura do cristal. Os doentes mentais são estruturas divididas e partidas do mesmo tipo.” (retirado do texto “A dissecção da Personalidade Psíquica” (1932-1933)

*Clivagem em uma direção é o caso das micas, do topázio, da silimanita, etc, (Figura 1), que ao microscópio apresentam uma série de linhas finas e paralelas quando os planos de clivagem são perpendiculares, ou quase perpendiculares ao plano da platina (seções longitudinais)

Tomando a citação de Freud e tomando por cristas nossas estruturas psíquicas, considerando os indivíduos normais, seres neuróticos, não se quebram ao acaso, isso quer dizer que existe um arranjo interno, que tal qual o cristal não se desestrura de qualquer maneira.

Todos nós possuímos uma estrutura psíquica de determinado tipo (fóbica, obsessiva, histérica, narcisista, etc.), sendo que cada estrutura possui seus modos de funcionamento próprio (hábitos, mecanismos de defesa, ideias) acoplada a algo completamente inabarcável pela ciência, que é a singularidade da história, dos afetos e dos pensamentos de cada pessoa.

O que rege o funcionamento de tais estruturas obedece a uma “linha de clivagem”, a forma que foi organizado. 

Estruturado e organizado com linhas invisíveis, com acontecimentos registrados, impossíveis de acessar pela volição e relacionam-se o tempo todo com esta estrutura os acontecimentos ou circunstância perturbadoras que nos fragilizam, que nos “quebram”. 

Importancia do autoconhecimento

Por isso é tão importante reconhecer quais são os seus limites, quais são suas fragilidades e o que pode estar causando um desequilíbrio, o que pode estar “quebrando você”.

Apesar de vários indivíduos compartilham de algumas características semelhantes, a personalidade de cada pessoa é individual e irreproduzível e se formam durante as etapas do desenvolvimento psico-afetivo, começando desde a gestação, pois o feto já está em condições distintas e já apresentam comportamentos particulares, apesar de ainda bem arcaicos, mas nem por isso menos importante. 

A formação do psiquismo inclui elementos geneticamente herdados e adquiridos no meio externo em que vivemos.

A personalidade é, portanto, um conjunto de características identitárias próprias de cada um que foram geneticamente herdadas, socialmente aprendidas, formando o mundo interno psíquico do indivíduo e é consideravelmente estável à medida que o tempo vai passando, e isso garante um melhor ajuste ao meio ambiente.

 

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Diante disso, a metáfora do cristal deve ser entendida para tomarmos cuidado com os outros e exigir dos outros o mesmo cuidado no trato e entendimento a maneira como cada um age e reage diante do mesmo estímulo, como cada um pode suportar e enfrentar as situações do dia a dia.

“Seja compreensivo, pois cada pessoa que você encontra no seu caminho
está lutando uma dura batalha”

Platão

Cristal quebrado nunca volta a ser o que foi um dia.

No entanto, um cristal quebrado nunca volta a ser o que foi um dia. 

E os indivíduos, e um ser humano? 

Como viver sem as quebraduras na alma? 

Como nos defender a ponto de ninguém nos trincar?

Embora excelente a analogia, não somos cristais. 

O cristal trincado, quebrado, nunca volta a ser o que foi antes.

Perde certamente parte do seu valor. 

No nosso caso, também não voltamos a ser o que fomos até então porque cada experiencia nos transforma um pouco e a cada vivencia o tempo todo. 

Mas, diferentemente do cristal essas experiências não retiram o nosso valor.

Valemos mais por conhecermos mais as trincaduras da alma.

Por nos aproximarmos mais das nossas fragilidades.
Com rachaduras ou sem. 

Capacidade de ser feliz

Com trincaduras ou sem nossa capacidade é, apesar da fragilidade humana, ser feliz.

É necessário trazer o senso de responsabilidade e reagir, tomando as rédeas para enfrentar o que é real corajosamente, e você pode contar, se necessário, com ajuda terapêutica para acolhimento e na digestão dos conteúdos diante das situações desestabilizadoras.

Outra coisa que pode ajudar é manter foco no futuro e em coisas boas para superar as pedras do caminho e estarmos mais seguros e donos da nossa vida.

Evidentemente não é um processo simples, mas possível para organizar a percepção e a dimensão interna e externa e tomar das circunstâncias uma condição para sairmos mais fortes emocionalmente. 

Por último, não confunda fragilidade com inocência.

Não se esqueça que o vidro é frágil, mas altamente perigoso.

Ninguém é forte o tempo todo. Há momentos de fragilidade.

Mas ninguém também é frágil o tempo todo.

Cuide da sua autoestima e tire proveito dessa capacidade.